sábado, outubro 28, 2006

Portanto, escrevo...

Escrevo, escrevo e escrevo.
Escrevo para aproximar pensamentos e dissipar ressentimentos.
Escrevo para me entender, para te entender.
Escrevo para não sofrer, para não pecar, para não enlouquecer.
Escrevo para esquecer do mundo e seus devaneios.
Escrevo para lembrar-me de mim, de nós.
Escrevo para atrasar o percurso das lágrimas.
Escrevo para me conectar com o meu eu interior.
Escrevo para me desconectar de dores e dissabores.
Escrevo para organizar meus pensamentos e sentir à flor da pele meus mais nobres sentimentos.
Escrevo para juntar as metades que me compõem.
Escrevo para assassinar o tédio, as horas, o tempo.
Escrevo para me elevar a uma outra dimensão.
Escrevo para escravizar meus tormentos, meus anseios.
Escrevo para pintar os quadros dos meus dias.
Escrevo para me aproximar da noite, do nirvana, dos deuses.
Escrevo para encontrar-me, para perder-me de vista.
Escrevo para suavizar os temores da minha alma.
Escrevo para transpôr barreiras e limites.
Escrevo para agendar meus desejos.
Escrevo para sentir a morte envolver-me lentamente em seus braços divinos.
Escrevo para meditar em cima da nostalgia de todas as músicas.
Escrevo para lembrar o que vivo esquecendo, o que vivo aquecendo, prevendo.
Escrevo para restaurar os meus dentes já substituídos.
Escrevo para indignar.
Escrevo para chocar.
Escrevo para não gritar.
Escrevo para mobilizar, fazer pensar, refletir.
Escrevo para dizer que somos um.
Escrevo para deixar o hoje para trás.
Escrevo para provocar dúvidas.
Escrevo para sentir-me, sentir-nos.
Escrevo para manchar a minha mente de espinafre.
Escrevo para saber quem eu sou, quem nós somos.
Escrevo para eletrizar a tempestade, para diminuir a chuva.
Escrevo para sonhar.
Escrevo para dilacerar.
Escrevo para xingar.
Escrevo para justiçar.
Escrevo para expôr.
Escrevo para me sobre pôr.
Escrevo, para às vezes, esquecer-me.
Escrevo para invocar Fernando Pessoa.
Escrevo para entrar no som cósmico divino.
Escrevo para lembrar-me daquela noite, para esquecer aquele dia.
Escrevo para finalizar e começar.
Escrevo para desconfigurar.
Escrevo para sentir esse gosto e esse cheiro.
Escrevo para arruinar a partida.
Escrevo para antecipar a despedida.
Escrevo para exorcizar a futura dor de não te ter mais.
Escrevo para estar mais perto.
Escrevo para retardar o sofrimento.
Escrevo para te encantar.
Escrevo para saberes quem eu sou.
Escrevo para não cair inerte na frente do teu caixão fechado.
Escrevo para leres minhas cartas quando tiverdes partido para a dimensão que me atrai.
Escrevo para clarear ou escurecer as páginas em branco.
Escrevo para amenizar a minha loucura, a minha saudade.
Escrevo para regastar as bonecas da minha infância.
Escrevo para evitar estragos externos.
Escrevo para não matar.
Escrevo para não fugir.
Escrevo para não perder o norte.
Escrevo para invocar os anjos.
Escrevo para acordar demônios asmáticos.
Escrevo para chegar até Deus.
Escrevo para não afundar-me neste chão.
Escrevo para asfixiar aranhas.
Escrevo para não queimar o que já está fervendo.
Escrevo para me curar.
Escrevo para me medicar.
Escrevo para suportar a dor da seringa rasgando a minha pele.
Escrevo para a minha mente não partir ao meio.
Escrevo para os meus neurônios continuarem respirando.
Escrevo para navegar nas ondas inertes do passado.
Escrevo para me sintonizar.
Escrevo para me distrair.
Excrevo para perdoar.
Escrevo para aceitar, para ignorar.
Escrevo para continuar em pé.
Escrevo para não mudar de canal.
Escrevo para cortar e criar vínculos.
Escrevo para manter-me sozinha.
Escrevo para sentir-me sozinha.
Escrevo para adivinhar meu futuro.
Escrevo para desmascarar os fantasmas da minha alma.
Escrevo para que meu coração continue bombeando sangue.
Escrevo para trazer de volta, para levar.
Escrevo para lembrar dos anos que convivemos sob o mesmo teto.
Escrevo para tentar sentir de novo no rosto o vento bom daquelas tardes ao seu lado.
Escrevo para não perder o brilho dos meus olhos.
Escrevo para transformar a saudade em nostalgia.
Escrevo para sentir a sua falta, para chorar a nossa distância geográfica.
Escrevo para sentir, mesmo de longe, o seu abraço de mãe, portanto, escrevo, escrevo e escrevo!

PS: "Não posso obrigar-me a ter paz de espírito, mas posso reexaminar
minhas prioridades. Estou dedicando tempo e esforços suficientes a
atividades que nutrem o meu espírito?" Anônimo

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