Nos braços do norte. Ausência de corte. Recorte mal feito, pisado, embolorado.
Meu rumo trava. Meu mecanismo de defesa se altera. Logo sou leve como uma pluma.
Esqueço-me do tempo. Confundo os meses. Invento outro calendário. Perco a noção dos dias e das horas que já passamos juntos, que já enloquecemos, que nos perdemos e nos encontramos entre lembranças e esquecimentos tardios.
Não sou daqui. Não quero ser. Não sinto meus pés no chão nem procuro uma solução para tal dormência.
Meu escudo me revela, me exalta, entorta, quebra o fumo, o cheiro, o vício já ignorado. Vidros, cacos, multidão. Sou festa, música e solidão. Tinta, mesa e caixão. Lágrimas, lenços e sofreguidão.
A morte, o norte, o certo, o incerto.
Sinto de mais as coisas. Sou meio que uma espiã disfarçada de sentimentos nobres, pobres, curvilíneos.
Tenho arestas finas e pontiagudas. Sou vidro, papel e metal. Não existo, não existes. A viagem para o norte é densa e condensada. É breve e esperada. É neutra, tem cheiro e gosto.
Gosto...
Qual é o gosto da boca dos desgostosos? Qual é o cheiro da roupa dos desesperados? Qual é a cor da pele dos anormais?
Qual o sentido de tudo? O que é sentido? O que é não sentir ou sentir de mais? Que química tóxica corre nas veias dos assassinos? Qual é a fórmula perfeita do corpo dos imperfeitos?
Eu enlouqueço. Eu venero. Eu saio do meu corpo e viajo para outros mundos. Eu corro e escondo-me nos braços quentes da lua, nos cantos brilhantes das estrelas, na rua sem saída que me levou até você.
O destino guiou-me ou fui eu quem o despistou?
Pensamentos, pensamentos e pensamentos...
Passa tempo, passa! O filme da minha vida está passando nas principais sessões de cinema do mundo.
Sou eu a diva e a princesa. O pobre sortudo. A menina que se enrolou em cordas de aço. A mulher que descobriu o pote cheio de doces.
Sou eu a agulha que espeta e medica. O voltante que vira e desvira, o freio-de-mão sempre puxado.
Não sou muita coisa nem pouca. Estou no meio de tudo. Sou o Meridiano de Greenwish cortando a Terra.
PS: "Ah! Tudo bolhas que vem de fundas piscinas de ilusionismo... — mais nada."- Cecília Meirelles.
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