sábado, outubro 28, 2006

O Meridiano de Greenwish

Nos braços do norte. Ausência de corte. Recorte mal feito, pisado, embolorado.
Meu rumo trava. Meu mecanismo de defesa se altera. Logo sou leve como uma pluma.
Esqueço-me do tempo. Confundo os meses. Invento outro calendário. Perco a noção dos dias e das horas que já passamos juntos, que já enloquecemos, que nos perdemos e nos encontramos entre lembranças e esquecimentos tardios.
Não sou daqui. Não quero ser. Não sinto meus pés no chão nem procuro uma solução para tal dormência.
Meu escudo me revela, me exalta, entorta, quebra o fumo, o cheiro, o vício já ignorado. Vidros, cacos, multidão. Sou festa, música e solidão. Tinta, mesa e caixão. Lágrimas, lenços e sofreguidão.
A morte, o norte, o certo, o incerto.
Sinto de mais as coisas. Sou meio que uma espiã disfarçada de sentimentos nobres, pobres, curvilíneos.
Tenho arestas finas e pontiagudas. Sou vidro, papel e metal. Não existo, não existes. A viagem para o norte é densa e condensada. É breve e esperada. É neutra, tem cheiro e gosto.
Gosto...
Qual é o gosto da boca dos desgostosos? Qual é o cheiro da roupa dos desesperados? Qual é a cor da pele dos anormais?
Qual o sentido de tudo? O que é sentido? O que é não sentir ou sentir de mais? Que química tóxica corre nas veias dos assassinos? Qual é a fórmula perfeita do corpo dos imperfeitos?
Eu enlouqueço. Eu venero. Eu saio do meu corpo e viajo para outros mundos. Eu corro e escondo-me nos braços quentes da lua, nos cantos brilhantes das estrelas, na rua sem saída que me levou até você.
O destino guiou-me ou fui eu quem o despistou?
Pensamentos, pensamentos e pensamentos...
Passa tempo, passa! O filme da minha vida está passando nas principais sessões de cinema do mundo.
Sou eu a diva e a princesa. O pobre sortudo. A menina que se enrolou em cordas de aço. A mulher que descobriu o pote cheio de doces.
Sou eu a agulha que espeta e medica. O voltante que vira e desvira, o freio-de-mão sempre puxado.
Não sou muita coisa nem pouca. Estou no meio de tudo. Sou o Meridiano de Greenwish cortando a Terra.

PS: "Ah! Tudo bolhas que vem de fundas piscinas de ilusionismo... — mais nada."- Cecília Meirelles.

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